domingo, 20 de agosto de 2017

Rua Duque de Caxias, 16 - Vila Militar

Ponte da Concórdia que divide Quaraí )BR) de Artigas (UY)
    O título deste post talvez não "te" diga nada, mas para quem conhece Quaraí diz muito!
   Encontrei esta narrativa sobre a minha cidade (na verdade sobre uma vida em Quaraí) em um post no facebook. O autor é Leonardo Batista, um guri que saiu compulsoriamente do Rio de Janeiro direto para Quaraí. Ou seja: mudança de planeta!

   A forma como Leonardo vai narrando sua vida, desde a chegada, nesta pequena/gigante cidade da fronteira oeste do sul do Brasil, é emocionante. Narrativa fácil, clara e direta, mas com muita emoção.
   De um geração distante e completamente diferente da minha, bem mais jovem, consegue fazer um relato emocional que em nada difere das minhas emoções sobre a cidade e seus acontecimentos há 40 anos atrás.
   Valeu Leonardo!
   Um lance tri!

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Leonardo Batista
  August 17, 2017
latitude 30º23'15" sul - longitude 56º27'05" oeste


- Fala pro seu irmão fazer 3 pedidos.
- Leandro, faz 3 pedidos.
- Quero ir embora. Quero ir embora. Quero ir embora.
 

   Assim começaram, o que talvez seja, os 4 anos mais inesquecíveis da minha vida.
   Esse conversa aconteceu aos sussurros na Igreja de São João Batista, em Quaraí. Isso! Qua/ra/í! Não é Kuwait, Corai ou Guaraí. É com quê, u, a!

   Quaraí fica no final da BR-293. E quando eu falo de final, é final mesmo! Fim. Acabou. Não tem mais nada além. Fronteira. Limite. Borda. É o mais puro sentimento de você chegou! Agora desce do carro, desamassa a bunda e, se a sua mãe for católica, entra na igreja para agradecer.

   Mas agradecer o quê? Eu não queria estar aqui. Eu não queria morar numa casa! Eu estava feliz no Chamonix! Eu não quero saber que vou fazer equitação e ter cavalo. Minha prancha e a imensidão do mar já não cabiam em mim! Aliás, o mar agora saía do programa semanal e virava um evento anual nas férias.

   E assim um Léo com 12 anos chega em Quaraí para morar na Rua Duque de Caxias, na casa 16 da Vila Militar. A última parada de uma viagem que começou em Minas, deu uma paradinha no Rio para as despedidas, cruzou São Paulo, Paraná, Santa Catarina, todo o Rio Grande e só não deu uma volta no Uruguai porque o Dino precisava parar.



Capítulo 1 – O Dino.
   Ele era uma mistura de Lúcifer com Michel Temer em forma de Husky Siberiano, que meus pais foram obrigados a aceitar como contrapeso pela mudança para um reino tão-tão distante.

   E foi graças ao Dino que estou aqui, para contar essa história para vocês, e não enterrado vítima de objeto voador não identificado.
    Assim que chegamos em casa, fomos fazer um reconhecimento da área antes mesmo de ver se as caixas da mudança haviam chegado.
   O quintal era enorme, com umas 3 ou 4 árvores de grandes porte, que não faço ideia o nome, alguns arbustos e até uma parreira, que além de fornecer algumas uvas, também fazia uma baita sombra e servia de lugar perfeito para o ninho dos passarinhos. O Dino descobriu isso rapidamente e nos dias de ventos fortes ficava de baixo da árvore esperando o filhote fazer o seu primeiro e último voo.

   Mas vamos esquecer o último voo dos filhotes de passarinho e lembrar do primeiro passeio do filhote Dino pelo quintal. Após três dias de viagem e dentro de um carro, você pode imaginar como ele queria correr e ter um lugar para chamar de seu. E foi exatamente isso que ele fez, ou tentou fazer, quando avistou aquele mundo que era o nosso quintal.

    Porém, ao passar pelas primeiras árvores ele tropeçou em alguma coisa e capotou. Achei que era algum efeito ( ou defeito) provocado pela viagem. Ele olhou sem entender muito e tentou dar mais um pique entre outras árvores. O resultado foi o mesmo, mais um capote. E a cena se repetiu mais umas cinco vezes até que eu, preocupado em ter um pião de estimação ou um cachorro com labirintite, fui dar uma checada no que estava literalmente passando a perna no Dino.

   Uma linha de pesca rente ao chão ligava uma árvore a outra transformando o quintal em um verdadeiro campo minado. Na última e maior árvore um linha mais grossa subia pelo caule. Sua tensão parecia que sustentava algo muito pesado. Era uma verdadeira obra do Coyote que persegue o Papa Léguas, e eu comecei a rezar para que aquilo terminasse como o desenho.

   Acho que o Dino pressentiu o que estava acontecendo e se meteu entre as minhas pernas tentando encontrar o final daquele fio. Uma bigorna? Uma flecha? O que faltava para a gente cair na armadilha?
   A linha cruzou todo o quintal e foi parar em cima do telhado da casa. Lá em cima, vimos o pedaço de um tronco pronto para despencar e trucidar tudo e qualquer coisa que parasse no seu caminho. Ao lado do tronco, dois moleques observavam tudo com uma cara de desapontamento.
   Deus tirou a armadilha do meu caminho, mas em compensação colocou os gêmeos na minha vida.

Capítulo 2 – Os Gêmeos.
   Tirando drogas pesadas e crimes dolosos, aqueles em que há a intenção de matar, acho que fizemos de tudo. Com eles e mais o Alexandre, a vida em Quaraí começou de verdade.

   Quando eu cheguei, estávamos em férias na escola e eles eram o meu único contato com a vida local. Eu até via outras crianças pela rua, andando de bicicleta, jogando um esporte estranho numa quadra que parecia de tênis, jogando bola na quadra do meu futuro colégio, mas me limitava a milícia mirim da Vila Militar.
   Não lembro se eu achava tudo isso estranho naquela época ou se isso é algo que me recorre agora. A verdade é que, por alguns meses, valia tudo para encontrar o meu lugar naquela cidade. Valia correr atrás das meninas, valia jogar pedra na janela do ginásio da cidade, invadir casa dos outros.
   Estava valendo tudo naquele fim de férias, onde a sensação era de uma viagem sem volta. Mas aí, as aulas voltaram.

Capítulo 3 – Escola Estadual de 1º e 2º Graus Professor Diehl.   Quando começaram as aulas, o Diehl era só um colégio gigante. Tão grande, que a quadra fazia divisa com o muro dos fundos da minha casa, e por muito tempo
   Esse foi meu principal caminho todas as manhãs. Aliás, ir para escola em Quaraí era completamente diferente de ir para escola no Méier. No Rio, só dava pra sentir frio no ar-condicionado. Era impossível sair de casa sem tomar banho.   O uniforme era bermuda, camiseta e tênis (sem meia por favor!). Já a nova rotina exigia mais disciplina e menos banho pela manhã. Ao invés de tirar a roupa e entrar no chuveiro, era o uniforme que vinha para debaixo do edredom e por cima do pijama. Se no Rio eu saía pela porta da frente, cumprimentava o Aguinaldo e ia andando para o colégio, em Quaraí eu saía pelos fundos, brincava com o Dino e pulava o muro.


   Lá dentro tudo era diferente do que eu já tinha visto. Pra começar tinha merenda de graça! Na hora do recreio, você chegava na cozinha e sempre tinha uma tia te esperando com biscoito e achocolatado. Alguns dias ainda rolava um bolo ou um doce.
   E foi ali, no refeitório daquela Escola Estadual, que eu comecei a ver que Quaraí era muito maior que a Vila Militar. E que o mundo era maior do que qualquer mar.
   Entendi que a minha hora do recreio era na verdade a primeira refeição de alguns dos meus colegas. As viagens de avião, que viraram corriqueiras no fim de ano, provavelmente seria uma experiência que alguns deles jamais viveriam. Entendi que, para muitos, presunto e queijo era só para o lanche de fim de semana.

    E foi me fazendo entender tudo isso que o Diehl me ensinou matemática, português, história, geografia e ciências. Me ensinou mais do que a viver e conviver com as diferenças. No Diehl eu aprendi a ter dúvidas com o diferente. E aprendi também a tirar dúvidas com ele. Descobri que os amigos da escola também podem ser os amigos do futebol, do paddle, da bicicleta.
   Foi na escola que minha vida em Quaraí ganhou mais gente e aprendi que gente é o que transforma qualquer lugar em lar.
   Só que esse lar era no Rio Grande do Sul. E em setembro, meus amigos, o Rio Grande do Sul vira outro país!

Capítulo 4 – Onde fica o Alegrete?   Para quem não conhece Quaraí e ainda está por aqui, preciso explicar que a cidade fica na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Fazem parte da Grande Quaraí algumas cidade como Uruguaiana, Itaqui, São Borja e Alegrete. E foi por causa do Alegrete que eu quase fui expulso. Não só do colégio, mas também de casa.

   Segunda-feira, 12 de setembro de 1995, como sempre eu sou o primeiro a chegar na sala de aula. Entro e sento no meu lugar. Os alunos começam a chegar, todos eles vestidos de um jeito diferente, mas ao mesmo tempo igual. Uma calça larga nas pernas e fina nas canelas, uma sandália e camisa de botão. No intervalo da primeira, aula a professora Geane entra na sala e me chama para uma conversa particular.
- Léo, cade sua pilcha?
 

- Que isso, professora?
 

- Sua bombacha?

- Tenho isso não.

- Então você vai ter que comprar.

- Pra que se eu não vou usar?


   E assim o papo se prolongou até chegar à minha casa. Na verdade mesmo, estava começando a Semana Farroupilha. Uma espécie de ano-novo chinês que só acontece no Sul. Por duas semanas é cavalo, bombacha e overdose de erva-mate!

   No colégio isso se traduz em apresentações de dança, coral e tudo mais que a imaginação da professora responsável pela turma permitir. No meu caso, seria um coral onde os alunos vestidos com as roupas tradicionais (uma dica: nunca na sua vida, mesmo em caso extremo de morte, chame uma bombacha de fantasia!) iriam cantar o famoso CANTO ALEGRETENSE.

   Você deve estar se perguntando: famoso? Sim, gente. Mais famoso que qualquer sucesso do CD AXÉ BRASIL 95. Só que, para mim, parecia canto gregoriano.
  E a professora queria que eu cantasse! E de bombacha. Sério, não dava. Até esse dia eu estava na moral: fazendo amizades e falando leitE quentE faz mal para o dentE.

Mas aí já e demais!

   Fato é que meus pais foram chamados na escola e ficou decidido que eu ia cantar, mas com roupa normal. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
   Primeiro, porque eu fiz questão de ir vestido ao melhor estilo Rap Brasil no Mackenzie. E segundo. Apesar de ter decorado a letra, aconteceu o impossível.
   Durante todo o imbróglio do canta ou não canta. Do veste ou não veste. Se passaram alguns dias e um dos meus amigos cismou que eu tinha que cantar com bombacha, lenço e chapéu. Para o Alex, eu estava de frescura (ou balaca, na gíria da época).
   E era justamente o Alex que estava ao meu lado na formação do coral. Ficamos lá no alto. Onde a gente pode ver todo mundo e consequentemente todo mundo pode ver a gente.
   A introdução do Canto Alegretense foi especialmente grande, mas o que realmente chama a atenção é a letra da música.

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy

    Tanto é que eu passei uma semana decorando esse trecho. Eu estava ao lado do Alex! Eu não podia errar! Eu já era o “carioca balaqueiro que não respeitava as tradições gaúchas”, e se errasse um dos hinos gauchesco seria fim!

O Alex errou!

   Mas não foi um errinho. Ele começou pelo refrão! Começou antes de todo mundo e pelo REFRÃO!

(PAUSA PORQUE ATÉ HOJE NÃO CONSIGO LEMBRAR DISSO SEM RIR)

   O Canto Alegretense começa com um pedido: não me perguntes onde fica o Alegrete.
   O Alex começou justamente pela parte que eu me esforçara tanto para decorar. E quando ele começou, eu terminei. Não conseguia parar de rir nem olhando para a cara de puto do meu pai, na plateia.
   Foi uma crise de riso que me obrigou a sair de fininho por trás de todo mundo e correr para as coxilhas. De lá ouvi consegui ouvir toda a exuberância da música gaúcha entoada pelos meus amigos.
   Amigos que, por um bom tempo, o castigo só me permitiu encontrar na sala de aula. Ao todo, acho que perdi umas 3 discotecas pelas garagens da cidade.

Capítulo 5 – As Discotecas.
   Sim. O tempo em Quaraí era medido pelas discotecas. Geralmente organizadas pelas gurias e frequentada por guris com camisa xadrez, calça jeans e um mesmo sapato que se comprava no Uruguai.
   O DJ levava todo o equipamento de som, as luzes e as cumbias. É isso mesmo, hermano, enquanto você ainda nem sonhava com o Despacito, eu já estava na sofrência de Los Autenticos Decadentes.

   Enquanto o Brasil inteiro balançava o esqueleto e a bunda com o Axé, as discotecas de Quaraí misturavam o ritmo brasileiro com muita música uruguaia, ou colombiana, ou peruana, ou argentina, ou chilena. Eu até hoje não sei de onde vem as Cumbias, e se elas vém todas do mesmo lugar.
   Pelo o que eu me lembre, só os Mamonas foram capazes de tocar um disco inteiro nas festas e Garota Nacional, do Skank, era obrigatória. Tirando essas exceções, a regra era Latinidad, Halls azul ou vermelho e tudo mais que só a adolescência em uma cidade do interior permite.
   As festas mais esperadas aconteciam na casa da Vanessa Soriano. Talvez porque não necessariamente aconteciam em uma garagem. Mas também rolava no Inácio, mas essas eram mais perigosas porque ele morava na esquina da minha rua e sempre corria o risco dos meus pais passarem por ali.



   Tinha festa atrás da agência do banco Banrisul, na casa de Vô, na casa de tia e também teve uma na vila militar.
   Mas era na casa da Dani Gindre que as discotecas ganhavam um novo status! Aliás, foi nessa casa que eu tive meu primeiro contato com a TV a cabo. Lembro de perder boa parte de uma discoteca assistindo pela primeira vez o Sportv!
   Não sei quando a galera começou a trocar as discotecas pelas casas noturnas. Não peguei a decadência das nossas festinhas e não sei como elas terminaram. Mas o grupo do Whatsapp, que reúne a galera desse tempo, tem foto de uma dessas festas no perfil. Ou seja, eu fui embora, as discotecas de garagem acabaram, mas todo esse tempo continua bem vivo em todos nós.


Capítulo 6 – A volta.
   O desejo do meu irmão se realizou 4 anos mais tarde. Em 98 me tiraram a cidade que me acostumei a gostar. Já não sentia mais a necessidade de voltar para o Rio e a única coisa que me preocupava era se na nova cidade, eu iria reencontrar tudo o que estava deixando em Quaraí.
   Os cavalos e as aulas de equitação, as salas do Diehl, a Semana Farroupilha e a professora Nair com seus mapas. O futebol e o paddle no Círculo Militar. O verão com sol até as nove horas da noite ou inverno que fechava a piscina do clube.



   Queria reencontrar na próxima cidade, aquelas crianças chatas que ficavam zoando o meu erre, o meu s, e qualquer outra palavra que eu falava. Que muitas vezes falavam uma língua totalmente incompreensível para mim tipo: zorrilho, gineteada, campanha, bagual e jogar uns ganchos.

   Uma galera que, mesmo sendo Tetra, achava tudo o que era legal Tri. E mesmo ano que vem, caso Neymar e cia sejam campeões na Rússia, o Hexa vai ser Tri.

   Aliás, galera não. Gurizada! Que terminava toda frase com tchê ou barbaridade. Que usava tu ao invés de você. Que come negrinho ao invés de brigadeiro. E que vai passear no Uruguai como quem mora no Méier dá um pulo na Dias da Cruz.
   Mas eu não encontrei mais nada disso. Acho que, na verdade, ninguém que viveu em Quaraí nessa época reencontrou tudo o que vivemos em outros lugares.
   Hoje, eu descobri que Quaraí é muito mais que uma cidade na fronteira do Brasil com o Uruguai, no sul do Rio Grande do Sul.
  Quaraí foi uma professora que ensinou para a geração que hoje curte fotos no Facebook, que bom mesmo era curtir a guerra de balão (bexiga) d`água na rua.
  Uma geração que compartilha ideias no whatsapp com uma baita saudade da conversa fiada na frente da casa do Tarso.
   Uma galera que até posta fotos de festas incríveis no Insta, mas guarda algumas fotos das festas nas garagens com todo carinho na casa dos pais.
   Quaraí é uma história com início, meio e fim. Muito bem vivida por todos nós. E todo dia reescrita em nossas lembranças. E se você chegou até aqui, sem conhecer o meu Quaraí ou reencontrar o seu, eu te pergunto.

- Tu é louco, tchê? Ou te faz?

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