quarta-feira, 3 de abril de 2013

Propaganda de Margarina

por Fernando Evangelista*

Quando o telefone tocou, às nove horas da manhã de sábado, eu estava deitado na rede da varanda, pensando na morte da bezerra, sem preocupações presentes ou compromissos futuros. Sábado de sol, casa limpa e arrumada, grama cortada no jardim – um típico dia de propaganda de margarina.

Pensei em não atender, mas a curiosidade venceu a preguiça, infelizmente. Era um colega jornalista, velho conhecido, sujeito vaidoso e arrogante. Perto dele, Romário é a Madre Teresa de Calcutá.

– Querido, bom dia, tudo em paz? É o seguinte: tô fechando uma matéria sobre cotas e preciso de um negro pobre, bem pobre, que seja gay.

– Como?

– O ideal é que seja alguém contrário às cotas. Quero fechar com chave de ouro este texto.

Se tem uma coisa que me dói os ouvidos é a expressão “chave de ouro”.

– Alô? Tá me ouvindo?

– Estou – respondi. – Agora, neste momento, eu não me lembro de ninguém assim, com esse, como dizer, com esse perfil.

– Te esforça um pouquinho, você conhece bastante gente da periferia – ele insistiu. – É matéria importante, encomendada diretamente pelo chefe dos chefes, pra edição de domingo. A gente quer mostrar que a política de cotas é equivocada e injusta.

Leia o artio inteiro. Beba na fonte.

Um comentário:

Mané Estrangeiro disse...

Podem usar todos os argumentos. Todas as citações. Podem usar até as trombetas do Apocalipse, podem usar todas as filigranas literárias possiveis. Mas, reduzindo-se a questão à sua verdade nua e crua, estamos apenas discriminando uma parte da sociedade para lhe oferecer ajuda ou vantagem, nao importa o que, pela cor da sua pele! E isso tem nome. Não importa se branca, negra, vermelha ou amarela.
Ou se para reparar os erros do passado. Muito melhor e mais justo não cometê-los mais.