quarta-feira, 17 de abril de 2013

Estranhas Memórias (II)


   Por Marcos Bayer

   E a onda bateu e voltou...

   A onda que se formou no pós-guerra foi uma onda de completa reavaliação da vida
humana associada. Antes dela, a Renascença Italiana, 500 anos antes, impondo uma
reflexão no Ocidente sobre o fim das trevas e o início das grandes navegações e dos
novos mundos recém-descobertos: As Américas do Norte, Central e do Sul.
   Na segunda metade do século XX, nasceu a geração mais livre e mais crítica da história
humana. Uma geração que questionou com Erich Von Daniken se os deuses eram
astronautas. Uma geração que ouviu de John Lennon a frase: Somos mais famosos
do que Jesus Cristo. Uma geração que ousou, quebrou regras, paradigmas, mudou
hábitos, ensinou o diálogo com os pais, perguntou onde vamos colocar nosso lixo -
até então lançado em qualquer matagal - como vamos morar uns em cima dos outros,
pois os edifícios eram fenômeno mundial havia 30 ou 40 anos, que roupas usaremos,
que sociedade queremos (uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks
rurais), que educação necessitamos? Em Paris a manifestação dos estudantes em Maio
de 1968, aqui a Tropicália, nos EEUU os protestos contra a guerra no Vietnã. Glauber
Rocha e o cinema novo. Hair e Jesus Christ Super Star. O perigo na guerra nuclear no
Hemisfério Norte, Luiz Gonzaga em Asa Branca no Hemisfério Sul.
   Ernesto Geisel e o trem bala do Japão. Mortes e torturas pelas ideias. Chico Buarque
canta Reconstrução. Caetano fala da piscina, margarina, da Carolina, da gasolina...
   Eu vou ao Baturité e depois na Kizumba ouvir George Benson cantar Lady Blue. When
you show me a different side... Because I love you more and more... Uma geração
libertária que queria um mundo melhor. Em 1981, o Senador Ted Kennedy discursava
nos jardins da University of Southern California e pedia aos governos americano e
soviético: Nuclear Freeze. Aqui, em 1984, dignos senadores organizavam o movimento
das Diretas Já.
   O Brasil começa a viver a abertura política. As drogas da década anterior, a maconha e
o álcool, especialmente, são adicionados à cocaína, depois ao ecstasy e ao crack final.
Tudo fica punk.
   Um sonho de paz e amor, do tamanho de uma geração, santa geração é substituído
pelo pragmatismo econômico que vem com a queda do Muro de Berlin, 1989, e com o
fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
    Garotos focados (não sabem no que), ternos iguais com gravatas sem cor, botões
fechados próximos aos pescoços, executivos sem sonhos coletivos que aprendem a
roubar desde cedo.
   Mobilidade urbana, modais, gestão otimizada, sushi & sashimi, kite surf e narguilé. É
muito pouco em troca de uma liberdade que não terminava no horizonte, de um velho
calção de banho, de um dia para vadiar, de um mar que não tem tamanho e de um
arco-íris no ar... Canta Vinícius teu lindo mar de Itapoã, falar de amor Itapoã...
   Sociedade de criatividade escassa, talentos represados, contidos nas magníficas telas
de PC. Diferente da bárbara bela tela de TV que cantava Gilberto Gil.
   Genética, profética, cibernética civilização. A cada dia me despeço da vida. É muita
coisa para guardar dentro do meu eterno peito juvenil...
   E a consciência da minha finitude estrangula minha garganta.

   Logo ela que tanto bradou.

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