terça-feira, 2 de abril de 2013

Editora Insular lança: Realidade - história da revista que virou lenda

Por Mylton Severiano
 
 A DITADURA SE FOI DE VEZ?
   Há 47 anos, eu estava no Jornal da Tarde, lançado a 4 de janeiro de 1966, de onde me passaria meses depois para REALIDADE, lançada em abril. O JT sacudiu o jornalismo diário, pela diagramação e pela linguagem. 
   REALIDADE foi mais fundo. Mexeu com as estruturas do "sistema", desafiou os conservadores, os preconceituosos, quebrou tabus. E em plena ditadura militar.
   Neste momento, quase meio século depois, reflito sobre as perguntas que mais me fizeram os estudantes todos esses anos: por que não fazem mais uma revista como REALIDADE?, por que não fazem mais reportagens como aquelas? Muitos abrem a boca de espanto quando digo que é porque a ditadura ainda não acabou. Digo meio de brincadeira, mas leia este livro refletindo comigo: se a ditadura que matou REALIDADE já acabou, então por quê?
   Apresentação
   Uma vez, numa roda de almoço de domingo, Roberto Schwarz observou que uma das
circunstâncias espantosas que cercam Machado de Assis é que ele tivesse existido no Rio provinciano, escravocrata, do fim do Século XIX. 

   Ao ler “Realidade – História da revista que virou lenda”, do Myltainho, pendurou-se no trapézio que tinha na cabeça – já que falamos de Machado – ideia parecida: o que espanta nessa lenda do jornalismo brasileiro é que tenha existido na São Paulo provinciana, escravocrata, sufocada pelo regime militar.
   Isso se deve, como diz o autor, à “Grande Banda”, “os loucos de 64”. E também a um completo irresponsável, o “Seu Victor” Civita, fundador da Abril no Brasil, que, movido pelo instinto animal do empresário, fez a Realidade e, depois, a Veja do Mino Carta.
   Depois, baixou a “responsabilidade”: o filho, desde sempre mal intencionado, fechou a Realidade e transformou a Veja no que chamo de “detrito de maré baixa”.
   Para quem trabalhou na Realidade (e na Veja do Mino), o que o Myltainho revela como documento valioso é a lucidez do nosso Maestro, o Paulinho Patarra. As anotações explicitam o dom de planejar, a estratégia, a visão que o Paulo tinha da futura revista, seu espaço no mercado – e especialmente a fórmula editorial.
   Paulinho era um profissional ! Ele tinha o pulso do momento e, por isso, convenceu o patrão.
   O que a Realidade já nas bancas pôs para fora foi “o sentimento do povo” que o Paulinho carregava no peito. Trabalhei com poucos profissionais que sentissem o cheiro da galera, como o Paulo. Um talento.
   Mais do que o editor-chefe e, na verdade, chefe de reportagem, o Paulo parecia daqueles políticos que sobem no palanque e dizem o que a massa quer ouvir: “hum, isso aí não interessa a ninguém...”
   A Realidade captou aquela ânsia de entender o mundo desorganizado dos anos 60, os costumes, os novos personagens, a miséria que São Paulo desconhecia: uma realidade que soltava um cheiro parecido com o dos mictórios dos bares que nós frequentávamos. Tudo misturado à intervenção militar.
   Já sei que o Myltainho vai se perguntar, mas, Paco, e o “primeiro violino, o Sergio de Souza? Isso mesmo, Myltainho, o Serjão era o “primeiro violino”. Mas, quem escreveu a partitura foi o Paulo.
   O Serjão dava ordem à casa. Com você. Você, na verdade, Myltainho, incentivava a desordem. Como a de dois alucinados jovens repórteres que o só o Paulo ousaria contratar: o Tonho, que era o Haf, e o Paco Maluco, o Perigoso, hoje mais conhecido como … Paulo Henrique Amorim

O Autor:
Mylton Severiano, paulista de Marília, onde concluiu o ensino médio e um curso de música de seis anos, passou por inúmeras redações de jornais, revistas e telejornais, antes de se tornar free-lancer e dedicar-se a criar peças para campanhas eleitorais e a escrever livros. Publicou, entre outros, Se Liga! – O livro das drogas (Record) e a biografiaPaixão de João Antônio (Casa Amarela) e Nascidos para perder - história do Estadão (Editora Insular).

Um comentário:

Anônimo disse...

Infelizmente não conheci a revista Realidade e não posso opinar sobre ela.
A VEJA é uma mídia como todas as outras, publica se pagam e ganha mais ainda para não publicar. Mais preocupado fico com o nível de intervenção no DC. Censura Prévia, inconstitucional. Mas tá rolando.
E, canga, acho que agora o Livro do LHS vai ter uma luz... assim que publicarem esta lei que li hoje:
A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (2) uma proposta que permite a divulgação de filmes ou publicação de livros biográficos sem autorização da pessoa biografada ou de sua família.
O projeto estabelece que "a ausência de autorização não impede a divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica de pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade".