sexta-feira, 12 de abril de 2013

Cartas de Laurita Mourão


   Querido Sergio, grande CANGA!
   Saudades suas esperando que já esteja com a saúde cem por cento em ordem.
   Por motivos variados, somente ontem pude ler o e-mail de sua amiga baiana Dra. Jacyan Castilho de 1/3/13 encaminhado por você solicitando meu e-mail para comunicar-se comigo.
   Fiquei perplexa por ela desejar transformar dois dos meus livros num monólogo teatral e me pedindo autorização ! Meus livros são medíocres e não despejam nos eventuais leitores nenhuma filosofia que já não esteja em prática neste mundo de DEUS !
   Entretanto ontem, falei com ela pelo celular, o meu e o dela, e nos entendemos: disse-lhe do agradecida que estou e mais que nada honrada e que ela pode usar os textos que deseje dos meus livros.
   Obrigada a você pela gentileza de dar-lhe as minhas coordenadas possibilitando o nosso contato.
   Estava, como em todos os Verões, em Punta del Este, onde fico os dois meses de janeiro e fevereiro evitando o senegalesco calor carioca e desligando-me de quase tudo inclusive, de certa forma, do computador, de maneira que os e-mail foram se amontoando e chegaram a passar de mil ... aí só mesmo quando regressei ao Rio e tive tempo de lê-los todos e respondê-los.
   Em meio de tudo isso, no último dia em Punta del Este, escorreguei no cabeleireiro e quebrei o úmero do braço direito: estou ainda engessada e agora mesmo escrevendo-lhe com a mão esquerda: nos meus quase 87 anos de idade virei AMBIDEXTRA ! Temos que ter muito cuidado com as palavras pois ao contar a uma amiga minha desta minha nova condição ela me perguntou por que que eu havia “decidido mudar de sexo” !
   Lembrei-me, então, daquela vizinha que por cima do muro lhe pergunta à outra por que nunca mais viu seu marido que antes saia tanto de casa e ouviu a resposta: “Não sai mais de casa desde que é SIFILÍTICO” e ouve-se de longe a irada voz do marido: “FILATÉLICO, idiota” !
   É, a língua portuguesa tem seus bemóis ...
   Numa outra ordem de ideias, comento o PEC DAS EMPREGADAS DOMÉSTICAS: entre as minhas amigas duas já despediram suas antigas domésticas aproveitando que ainda não há multas a pagar e tomaram cada uma 2 faxineiras alternadas em dias diferentes da semana de maneira a ter o serviço todos os dias ficando LIVRES de qualquer vínculo empregatício uma vez que as faxineiras são autônomas.
   Aqui em casa tenho há 23 anos as mesmas 3 empregadas mulheres que dormem aqui comigo e meu motorista que se retira todos os dias e nenhum deles trabalha oito horas por dia porque se revezam, saem à rua, frequentam cursos, ganham muito bem sem gastos, cada uma tem seu quarto individual com TV, ventilador de teto, roupa lavada nas máquinas de casa, férias anuais pagas, folgas semanais, 13* salário, INSS pago por mim sem descontar-lhes nada, 2 meses do Verão ficam livres enquanto estou fora do país e ganham igualmente sem descontos, e agora tenho que colocar um relógio de ponto em casa para marcar as HORAS EXTRAS que jamais acontecem por que eles se revezam ... e dividem inteligentemente o trabalho doméstico sem que eu diga nada: somos muito felizes.
   Além de tudo, como são analfabetas, não vejo bem onde trabalhariam senão em outra casa no mesmo serviço pois não sabem, infelizmente, fazer outra coisa!
   A gritaria é geral também porque o LAR de FAMÍLIA não produz lucros senão e somente GASTOS, de modo que ainda ter mais gastos com o serviço doméstico que, além de dormir no emprego, se ALIMENTA por conta do patrão ... parece injusto!
   Como no nosso país há LEIS “que pegam e outras que não pegam” veremos com o passar do tempo o que acontece, entretanto, como Advogada que sou, estou tomando as providências cabíveis por que não se brinca com leis constitucionais ainda que se esteja com a razão !
   O Prefeito do Rio de Janeiro todos os dias inaugura um buraco (SALVO SEJA! como diziam as minhas elegantes tias Linhares nos anos 1940) o que tem tornado o nosso trânsito automotor absolutamente engarrafado a qualquer hora do dia e da noite por conta das ruas dos bairros estarem “cortadas” para as obras a ficarem prontas ANTES dos internacionais eventos a vir.
   A propósito da palavra EVENTO, um “boia fria” assombrado e horrorisado com a possibilidade do fim-do-mundo disse ao amigo que estava com ele tomando a cervejinha costumeira que “não temesse porque aqui no Brasil não aconteceria nada pois ainda “não estamos preparados para os grandes “EVENTOS” ...
   Querido CANGA nada é mais importante que a saúde: estou-lhe escrevendo, como disse acima, não de Ipod ou BlackBerry senão com a minha mão esquerda por causa do meu ÚMERO quebrado: novamente temos que ter cuidado com essa palavra: quem sabe como vai ser interpretada !!!

   Abraços muito respeitosos da amiga e admiradora, agradecida, 
Laurita Linhares Mourão de Irazabal.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns dona Laurita pelo brilhantismo com que redige. Adorei seu refinamento crítico ao descrever as repercussões sócios culturais que a legislação trabalhista agora aprovada irá criar.
Com certeza, por detrás destes novos mandamentos jurídicos, deve se encontrar o pensamento de um grande apedeuta.